Doença neurológica rara poderá explicar Alzheimer e Esclerose Múltipla

Corte transversal do nervo ciático em microscopia electrónica. No centro da imagem vê-se um corte de um axónio completamente desmielinizado. A circundar vêm-se prolongamentos das células de Schwann a tentar remielinizar o axónio.

Uma classe de fosfolípidos, os plasmalogénios, são fundamentais para o correto desenvolvimento e função do sistema nervoso periférico, conclui um estudo publicado  no Journal of Clinical Investigation por uma equipa internacional liderada por investigadores do Instituto de Biologia e Medicina Celular (IBMC) e do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS).

A equipa portuguesa chegou a esta descoberta enquanto trabalhava numa doença rara, a Condrodisplasia Puntacta Rizomélica (CPR), e as conclusões do estudo abrem portas a novas abordagens para doenças neurológicas como a CPR e outras mais frequentes, como é o caso da doença de Alzheimer e Esclerose Múltipla, que também registam uma diminuição destes fosfolípidos.

O trabalho agora publicado, além de descrever as complexas alterações neuropatológicas e o mecanismo por detrás da CPR, apresenta resultados dos primeiros tratamentos pré-clínicos destinados a combater a falta dos plasmalogénios no sistema nervoso. O investigador do IBMC, Pedro Brites, explica que a principal manifestação da CPR nos doentes é “um grave problema na formação e manutenção da mielina, uma bainha que protege e isola os nervos”. Esta bainha funciona tal como os revestimentos plásticos dos cabos elétricos, e a sua perda “torna-os disfuncionais”, adianta o investigador.

Em estudos anteriores, tudo indicava que a perda desta camada protetora e a biossíntese dos plasmalogénios estariam de alguma forma relacionadas mas, talvez pela sua abundância no sistema nervoso, o estudo destes fosfolípidos acabou por ser negligenciado. A complexidade da patologia acabava sempre por levar à impossibilidade de claramente diferenciar as causas das consequências das alterações no metabolismo. Para Pedro Brites, coordenador da equipa de investigação, a descoberta é de facto surpreendente, “pois clarificamos precisamente os processos que se desenrolam na doença, ou seja, que o nível baixo de plasmalogénios é a causa e não a consequência de inúmeras alterações sofridas por estes doentes”.

O modelo que os investigadores propõem irá captar a atenção num futuro próximo, uma vez que “os níveis destes fosfolípidos estão alterados em várias doenças, embora não tão drasticamente”, afirma Pedro Brites. Na publicação, os investigadores provam que, no caso da CPR, a diminuição de plasmalogénios impossibilita a ativação da primeira enzima de uma cascata de sinalização extremamente importante nas células de Schwann, as células responsáveis pela formação da bainha de mielina. A partir daí, o funcionamento destas células fica comprometido, com consequências gravíssimas.

O investigador do IBMC explica que “no caso de outras doenças neurológicas, também se registam défices de plasmalogénios”. Por esse motivo, a equipa infere que “será espectável que as mesmas vias de sinalização estejam afetadas” nessas doenças neurológicas. A confirmar-se este cenário, será possível desenhar terapêuticas mais abrangentes e mais a montante do aparecimento dos problemas.