Depressão materna pode influenciar obesidade infantil

Segundo os investigadores da FMUP, uma situação de depressão da mãe pode conduzir a um cenário em que esta não seja tão responsiva. (Foto: DR)

Um estudo desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), em que um dos objetivos foi analisar a qualidade da relação entre mães e filhos, concluiu que o stress psicológico causado pelo estado mental materno pode influenciar o desenvolvimento de obesidade e de síndrome metabólica nas crianças.

Desde o nascimento que o bebé começa a estabelecer uma relação com o adulto que lhe assegura o seu conforto e sobrevivência —uma vinculação que influência vários aspetos da vida da criança. Quando a qualidade dessas relações está comprometida podem ser despoletados mecanismos na criança que levam a alterações fisiológicas – variações nos níveis de cortisol, hormona do stress responsável pelo controle dos níveis de açúcar no sangue – e a mudanças comportamentais no que diz respeito ao sono e ao apetite.

Os investigadores estabeleceram, ainda, uma relação entre os géneros e depressão. As raparigas cujas mães estão deprimidas têm maior probabilidade de também elas desenvolverem depressão. Por outro lado, o estudo sugere que, em filhos rapazes, o mesmo cenário não é tão frequente.

Segundo os investigadores, uma situação de depressão da mãe pode, por exemplo, conduzir a um cenário em que esta não seja tão responsiva a alguns sinais de sofrimento do seu filho e que evite estar na presença do filho quando este chora. Consequentemente, esta criança internaliza que o choro é algo negativo e suprime-o, seja para manter a mãe por perto ou porque sente que não surte efeito. Este processo pode, em última instância, culminar quer num cenário de compensação seja através de alimentos ou de desregulações hormonais.

O estudo levado a cabo por Inês Pinto, médica pedopsiquiatra no hospital Beatriz Ângelo, destaca-se pelo facto de salientar as diferenças de vários tipos de vinculação entre progenitores e a sua prole. Assim, a investigação, desenvolvida no âmbito do programa doutoral em Metabolismo: Clínica e Experimentação da FMUP, ressalva que a estratégia de intervenção dos profissionais de saúde deve ser adaptada tendo em conta os diferentes tipos de vinculação. Segundo a investigadora, a intervenção deverá ter em conta a qualidade da relação entre a mãe e a criança e o estado mental materno.

“Os pais desempenham um papel fulcral no crescimento dos seus filhos, especialmente durante a infância. Como o cérebro é capa de uma profunda plasticidade, esta é uma oportunidade para atenuar estes mecanismos.”, explica Inês Pinto, primeira autora do estudo. “Deste modo, os pais estão a facilitar que questões como o equilíbrio energético, o peso corporal e a distribuição de gordura fiquem regulados, reduzindo o risco de obesidade infantil ao impedir a ocorrência de respostas ao stress que perturbam o funcionamento e o desenvolvimento dos sistemas fisiológicos.”, acrescenta a investigadora.

Os resultados desta investigação, orientada por Rui Coelho, professor catedrático da FMUP, sublinham a importância da qualidade da relação mãe-filho, do funcionamento familiar e do estado mental de pais e filhos quando se estuda a obesidade infantil.