ASPiRe: uma experiência na COHiTEC quase na primeira pessoa

A Aspire foi uma das cinco equipas da U.Porto que marcaram presença na edição 2013 do Programa COHiTEC. (Foto: COTEC Portugal)

Há cerca de um ano, Marta Vaz MendesRicardo Pires e Rita Rocha, todos eles investigadores do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) da Universidade do Porto, concorreram ao programa COHiTEC e foram selecionados para integrar a edição 2013 promovida pela COTEC Portugal. Os três investigadores desenvolvem trabalhos de investigação muito distintos no IBMC mas decidiram juntar-se e propor duas tecnologias – direcionadas para o aumento da eficiência do processo de desenvolvimento de novos fármacos – para serem exploradas numa vertente de negócio. Adoptando o nome ASPiRe , a equipa não estaria completa sem mais cinco elementos: três estudantes de gestão (MBAs) da Porto Business School e dois mentores executivos convidados pela COTEC.

Os oito aventureiros iniciaram uma travessia de quatro meses, dando espaço ao espírito empreendedor que cada vez mais é solicitado a investigadores. Para Marta, “o programa fez-nos sair da nossa zona de conforto e ser confrontados com algo importante nos negócios: cada tecnologia deve resolver de forma competitiva e inovadora um problema concreto, num determinado segmento de mercado”. Facto que Ricardo corrobora, acrescentando que o COHiTEC os ensinou “a racionalizar a dimensão do mercado para o produto/serviço.” Ideia que Rita Rocha reitera com uma questão que considera “muito importante: o que nos distingue dos nossos competidores?”

Para Rita Rocha, aprender a explorar oportunidades de negócio não foi um terreno completamente novo. Confessa que “já tinha uma experiência anterior com o NEOTEC” e “sabia que era fundamental um equipa motivada e trabalhadora”. A também investigadora da Faculdade de Medicina da U.Porto (FMUP) rapidamente percebeu que isso seria fácil com os dois colegas que já conhecia do instituto. E durante a preparação da candidatura confirmou que eram “capazes de trabalhar em grupo com discussões abertas e muito focadas”, preenchendo um requisito essencial ao sucesso.

Marta Mendes não tinha formação na área mas já havia tentado transferir algumas das suas ideias para o mercado, nomeadamente através de patentes. Mas de patentes a negócio o percurso é longo e, por isso, viu no programa “a oportunidade ideal para explorar o potencial de uma ideia que” tem “vindo a desenvolver no meu grupo de investigação”. E adianta que nos últimos anos tem “andado às voltas com a exploração do potencial de bactérias do género Streptomyces para a produção de novos compostos bioativos.”

Motivação semelhante teve Ricardo Pires quando resolveu “explorar o potencial de uma tecnologia para a purificação de proteínas que” tem “desenvolvido no laboratório”. O sucesso científico talhado recentemente na Nature não o demoveu de explorar novas saídas pois sentiu “que todos na equipa partilhavam a vontade de aprender como é que se passa de uma ideia de laboratório para um negócio.”

O que fica da experiência

Quando questionados sobre a experiência COHiTEC, os três cientistas empreendedores afirmam que foram “incentivados a contactar especialistas e clientes potenciais que (n)os ajudaram a desenvolver o RCKlear”. Com um sorriso, Ricardo Pires clarifica que o RCKlear é a ideia que acabou por ser explorada e que se trata de um “produto a aplicar no processo de purificação de anticorpos monoclonais que simultaneamente remove os contaminantes de uma forma especifica e reduz entre 1 a 5% os custos totais de produção.”

Entre os aspetos que mais atraíram a equipa destacam-se as conversas com especialistas que lhes permitiram compreender o mercado e as suas necessidades. Marta Mendes recorda que “durante a formação foram estimulados a falar com especialistas e potenciais clientes para as tecnologias” que a equipa propôs, bem como a “compreender que produto ou serviço pode essa tecnologia ajudar a desenvolver”. Uma experiência que acabou por constituir “um exercício muito exigente que (nos) obriga a repensar aplicações e adaptar a tecnologia às necessidades de facto existentes no mercado”, esclarece Rita Rocha. Mas se as ideias abundam, apenas algumas têm potencial para chegarem ao mercado. Por isso mesmo, afirma Ricardo, “a certa altura somos confrontados com uma realidade: cada tecnologia tem de responder a uma necessidade de mercado”.

Quase em uníssono, os investigadores acreditam que “o networking é uma componente muitíssimo importante do programa”, uma vez que “falar e conhecer pessoas com o mesmo espírito empreendedor e com motivações diversas no mundo dos negócios, muda a (nossa) maneira de pensar”.  Na opinião de Ricardo, “é interessante constatar que muitos investigadores têm dificuldades neste exercício”, referindo-se à conversão de uma ideia num negócio, “e muitas vezes sentem-se bloqueados e frustrados enquanto não encontram grandes possibilidades para as suas tecnologias”. Daí ser importante a participação neste tipo de curso para, como diz Rita Rocha, nos fazer perceber que “somar novas perceptivas, novas formas de olhar a mesma questão, é a chave para que as ideias tenham sucesso”.

O que fica para o futuro

O que se espera que fique da experiência no programa COHITEC? Marta Mendes é perentória ao afirmar que “as equipas estarão em condições de decidir se os seus projetos têm pernas para andar e optar por avançar para a criação de uma empresa de base tecnológica, de forma a colocar no mercado um produto ou serviço inovador e com potencial de crescimento.” Mas, como adverte a Rita Rocha“muitos dos projetos estão ainda longe da comercialização e torna-se essencial angariar um primeiro investimento para o desenvolvimento”, fase que pode durar em média cerca de 2 anos. Durante esse período crítico é necessário , nas palavras de Ricardo Pires, “que o projeto dê provas de que se pode transformar em produtos ou serviços de valor acrescentado e, dessa forma, ganhar maior solidez, mais garantias para futuras rondas de investimento”.

Após a formação COHiTEC Marta, Ricardo e Rita continuam motivados para prosseguir o projeto ASPIRE. E garantem que passarão a integrar “uma vertente mais empreendedora nas linhas de investigação” e, certamente, “com o contínuo apoio do IBMC”.