A globalização já se faz notar no mundo animal e vegetal

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O caracol branco Theba pisana é uma espécie originária da Europa que está agora distribuída mundialmente ao longo das regiões temperadas (Foto: César Capinha).

Várias espécies estão a ultrapassar as suas barreiras biogeográficas através da ação humana e a dispersar-se por regiões do mundo de onde não são naturais, conduzindo a uma homogeneização global da biodiversidade. Só o clima tem impedido uma maior dispersão das espécies invasoras.

Esta é a principal conclusão de um estudo levado a cabo por uma equipa internacional liderada pelos investigadores do CIBIO-InBIO César Capinha e Henrique Pereira e cujos resultados foram publicados pela revista Science.

Neste estudo inovador é realizada a primeira análise global da forma como as invasões biológicas estão a reorganizar os padrões biogeográficos que têm vindo a evoluir ao longo de milhões de anos, e são obtidas evidências de que se estão a processar importantes alterações ao nível da biodiversidade.

Apesar das suspeitas de que a globalização da dispersão de espécies mediada pelo Homem poderá ter como consequência a eliminação das barreiras biogeográficas, até ao momento não existiam dados empíricos que permitissem suportar esta hipótese.

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César Capinha, investigador do CIBIO-InBIO – Cátedra REFER-Biodiversidade e primeiro autor do estudo.

“Tendo isto em consideração, adotámos uma perspetiva diferente. Não testámos se têm havido alterações da diversidade de espécies ao nível das comunidades ao longo do tempo. Aquilo que fizemos foi tentar perceber de que forma está a similaridade entre comunidades de espécies a sofrer alterações”, explica César Capinha, investigador do CIBIO-InBIO – Cátedra REFER-Biodiversidade e primeiro autor do estudo.

A equipa composta por cinco investigadores de Portugal, Áustria e Alemanha testou a hipótese da homogeneização através da análise de 175 espécies de gastrópodes invasores (caracóis) ao longo de 56 países e sub-regiões. Os investigadores estabeleceram a listagem das espécies invasoras que ocorrem em cada um dos locais, de forma a obter a distribuição global atual destas mesmas espécies, isto é, de modo a conhecer a distribuição dos caracóis após a sua dispersão por acção humana. De seguida, os investigadores foram determinar quais os locais onde estas espécies se encontravam antes desta dispersão mediada, tendo sido definida para cada espécie de caracol a respetiva lista de locais de onde é nativa.

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Henrique Pereira, investigador do CIBIO-InBIO que também participa neste estudo.

Os resultados obtidos são claros: tal como seria de prever, antes da dispersão mediada por humanos, era possível encontrar comunidades semelhantes em cada uma das principais regiões biogeográficas. Mas após a intervenção humana, as comunidades de espécies invasoras apresentam um padrão de distribuição completamente diferente, estando organizadas em duas grandes regiões biogeográficas: trópicos e áreas temperadas. As comunidades de espécies em áreas temperadas são mais semelhantes a outras comunidades noutras áreas temperadas, independentemente do continente em que se encontram. E o mesmo se verifica para as comunidades tropicais.

Ou seja, o estudo demonstra que a homogeneização está a acontecer, mas condicionada pelo clima. As barreiras geográficas à dispersão anularam-se, mas o clima ainda limita a capacidade das espécies colonizarem novas áreas. Isto sugere que as comunidades se vão tornar cada vez mais semelhantes a quaisquer outras comunidades que se inscrevam em quaisquer pontos do globo com climas idênticos. Os autores advertem para o facto desta expansão de espécies invasoras exercer uma pressão sobre as espécies nativas, tal como se torna facilmente percetível se atendermos a que, nos últimos 500 anos, as invasões biológicas têm sido responsáveis por mais episódios de extinção de espécies do que qualquer outro fator.